Cidades

Educação familiar é essencial na redução da violência contra mulher

Doze mulheres agredidas por dia no Brasil. Essa foi a média registrada em 2025. Foram mais de 4.500 vítimas de violência no ano passado, segundo a Rede Nacional de Observatórios. Por isso, embora esse tema pareça recorrente, é fundamental continuarmos a falar sobre ele.

machismo estrutural é a causa da reprodução desses casos. Essa realidade é reconhecida pelos próprios homens, em geral. Um levantamento da ONU Mulheres com o Instituto Papo de Homem revelou que 81% dos homens e 95% das mulheres consideram o Brasil um país machista.

Portanto, para reverter números como os de agressão às mulheres, é essencial incluir os homens na conversa. Bem como na construção de soluções para o enfrentamento à violência.

Reeducação

Tem quem diga que as mulheres mudam o mundo. Com a palavra, o psicólogo Flávio Urra, que trabalha na reeducação com foco em autores de violência.

“Porque a gente sempre diz que as mulheres, elas mudaram o mundo. Tem uma série de pautas que as mulheres colocaram, que agora são legitimadas, aceitas socialmente, na mídia, nos filmes, novelas. E os homens não fizeram essa mudança. Então, os homens continuam com a mesma cabeça de 30 anos atrás, de 50 anos atrás, querendo aquele modelo de família, aquele modelo de mulher que não existe mais.”

É claro que existem as exceções. O engenheiro Carlos Augusto Carvalho, de 55 anos, aprendeu inclusive em diálogos com outros homens que combater o machismo é uma luta diária.

“Eu acho que o machismo é essa coisa que está enraizada e que a gente tem que diariamente combater. Realmente levantar uma bandeira forte para eliminar isso do nosso caminho.”

Mas como são formados e sustentados os comportamentos machistas? Segundo Felipe Requião, consultor e facilitador de grupos de homens, a família, a escola e as redes sociais são protagonistas na formação da masculinidade — seja ela sadia, madura, benéfica ou tóxica. Ele explica como a família pode contribuir para ser um espaço de mudança.

“Quando a família não reforça estereótipos rígidos, por exemplo, o homem não chora, o homem não faz trabalho doméstico, o homem não cozinha, esse tipo de coisa.”

Educação

Para o psicólogo e terapeuta familiar Alexandre Coimbra do Amaral, quando a família adota o modelo de masculinidade tradicional, a criança recebe uma educação que pode favorecer a violência.

“Então, essa biografia mais enrijecida ensina que homens têm que deter o poder, precisam dominar, precisam submeter, e quando as pessoas não são regidas por esse binome, dominação e obediência, a violência precisa aparecer como uma espécie de cala boca.”

Mesmo assim, Alexandre Coimbra defende que o homem não deve usar a forma de criação como desculpa, mas se questionar se essa criação trouxe prejuízos.

Identidade masculina

Na opinião de Peu Fonseca, orientador familiar, é preciso uma identidade masculina nova, coletiva e social que não mate mulheres e meninas.

“E que ela se afaste do que nos trouxe aqui até hoje, porque o que nos trouxe aqui até hoje está matando mulheres. A gente não tem como admitir isso mais.  Chega! A gente precisa ensinar para os nossos meninos que eles precisam gostar de meninas e não odiar meninas. E não se sentirem ameaçados. O fato de as meninas ocuparem espaços que antes eram nossos, não diz sobre as meninas quererem nos dominar. Diz sobre a gente não querer aprender coisas novas. E é por aí que eu acho que a gente devia conversar.”

Para o jornalista e pesquisador em masculinidades Ismael dos Anjos, diferente das avós e mães, as meninas de hoje já aprendem que o lugar delas é onde quiserem. Agora é a vez dos meninos buscarem uma nova realidade em que cuidem de si e do outro.

“Meninos que, na brincadeira, em vez de passarem por só futebol, polícia e ladrão, pega-pega, brincadeiras que se um menino cai, rala o joelho, levanta, vira homem, também sejam estimulados a ter brincadeiras de cuidado”.

Cuidado

Ismael cita exemplos de como os meninos podem aprender que cuidado também é uma palavra masculina. E quem sabe mudar o futuro.

“Se existe professor e aluna, mamãe e filhinha, por que a gente não ensina professor e aluno, papai e filhinho para os nossos meninos? Então, entendo que mudar a chavinha para entender que o cuidado não seja algo compulsório para as meninas desde a mais tenra idade, apenas, mas também seja algo estimulado entre os meninos desde a mais tenra idade. Uma mudança que pode gerar, a longo prazo, uma mudança cultural e uma mudança desejável para uma sociedade de homens  que, caso ascendam a posições de influência, de liderança, saibam a responsabilidade que carregam consigo nesses papéis.”

Fonte: Agência Brasil

Polyana Girardi

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