Educação

Licitação de meio bilhão para contratação de transporte escolar é suspensa após denúncias de irregularidades

A Secretaria de Licitação e Contratação (Selc) do Governo de Roraima suspendeu o processo licitatório de mais de meio bilhão de reais para contratação de transporte escolar. A decisão está no Diário Oficial do Estado (DOE) do dia 20 de outubro.

O processo foi alvo de várias denúncias de irregularidades e deficiências técnicas. O pregoeiro então entendeu pela necessidade de uma melhor avaliação técnica.

“Considerando que a administração deve reconhecer e anular, suspender ou revogar seus próprios atos quando acometidos de ilegalidades, com fulcro nas súmulas nº 346 e 473 do STF..., diz trecho do documento, ao qual o Roraima em Tempo teve acesso.

Além disso, a Selc considerou que a concorrência entre os interessados deve ser justa. O que não estava ocorrendo, segundo os pedidos de impugnação do edital.

“CONSIDERANDO, a necessidade de alcançar os objetivos da Nova Lei de Licitações, n° 14.133/2021, para assegurar a seleção da proposta apta a gerar o resultado de contratação mais vantajoso para a Administração Pública e assegurar tratamento isonômico entre os licitantes, bem como a justa competição…”.

Denúncias na licitação

A licitação para contrtação de transporte escolar do Governo do Estado prevista em R$ 541,3 milhões recebeu vários pedidos de impugnação. O Roraima em Tempo teve acesso exclusivo aos documentos no dia 14 de outubro.

De acordo com as denúncias, o processo licitatório, que ocorre por meio da Secretaria Estadual de Licitação e Contratação (Selc), apresenta vícios, irregularidades, além de deficiência na transparência.

Em um dos relatos, a empresa identificou os seguintes problemas:

  • Ausência de dados atualizados das rotas de transporte escolar, comprometendo a exatidão da estimativa de custos;
  • Inexistência de memorial de cálculo detalhado que fundamente os preços estimados para a contratação;
  • O item 14.10 do edital menciona a “planilha de composição de custos”, porém não disponibiliza modelo ou referência técnica que permita sua elaboração;
  • Falta de informações precisas sobre a quilometragem real de cada rota, dificultando a análise de viabilidade econômica por parte dos licitantes.

“Tais omissões configuram vício material no edital, comprometendo a competitividade, a isonomia entre os participantes e a obtenção da proposta mais vantajosa para a Administração Pública”, alegou a firma.

Procurado, o Governo do Estado não prestou esclarecimentos.

Pedido de esclarecimentos

Uma das empresas interessadas em participar do certame, solicitou informações e fez questionamentos para esclarecer as possíveis falhas do processo.

Como por exemplo, no caso do transporte escolar a ser contratado para o município de Alto Alegre. É que, conforme a empresa, no edital não há informações sobre a quantidade de quilômetros e valor. Assim, a falta da referida informação impede a firma de elaborar uma proposta.

Além disso, a empresa questiona que, em um dos itens do edital, constata-se que a Seed pretende pagar pela prestação dos com base no “quilômetro rodado efetivamente percorrido”. No entanto, observa-se que na descrição dos veículos consta “quilometragem livre”.

“Como executar com quilometragem livre, se a forma de cobrança dos serviços deverá ser quilometragem efetivamente realizada?”, indagou a firma à Seed.

Falta de precisão

Uma outra empresa questiona a falta de precisão nos dados apresentdaos pela Seed para que os participantes da licitação possam fazer proposas e tenham segurança jurídica.

“A elaboração de proposta de preços para serviços de transporte escolar depende essencialmente do conhecimento preciso e definitivo de dados como quantidade exata de alunos a serem transportados, localização geográfica desses alunos, quilometragem real a ser percorrida, condições de trafegabilidade das vias, necessidade de veículos especiais (4×4) e quantidade de monitores necessários”, explicou.

Conforme a denunciante, esses dados não são acessórios ou secundários. São os elementos centrais que determinam os custos de combustível, manutenção de veículos, contratação de pessoal, depreciação da frota. E, consequentemente, o preço a oferecer por quilômetro rodado.

Licitação de meio bilhão (a maior da história)

Governo de Roraima abriu a licitação, considerada a maior da história, no final de setembro deste ano. Conforme edital, o valor estimado da contratação é de R$ 541,3 milhões, divididos em 15 lotes que abrangem todos os municípios do estado. O maior montante está previsto para Uiramutã (R$ 100,2 milhões), seguido de Normandia (R$ 80,4 milhões) e da área rural de Boa Vista (R$ 64,3 milhões). O menor, por sua vez, está destinado a São João da Baliza, estimado em R$ 3,4 milhões.

A prestação de serviço deve contar com uma frota de 44 ônibus, 120 micro-ônibus, 62 micro-ônibus tracionados 4×4, 128 vans e 525 picapes 4×4.

Ainda de acordo com o edital, todas as despesas decorrentes da execução dos serviços serão de responsabilidade da empresa contratada. Os gastos incluem combustíveis, motoristas, monitores e manutenções de qualquer natureza. O pregão eletrônico está previsto para caontecer na sexta-feira, 17.

Mais irregularidades

A reportagem conversou com a advogada Karen Melo que representa alguns empresários. Conforme ela explicou, a licitação divide o serviço em 15 lotes. Sendo que alguns são tão desproporcionais, que um único lote (Uiramutã) ultrapassa R$ 100 milhões anuais, enquanto outros, como São João da Baliza, não chegam a R$ 4 milhões.

Conforme ela, a discrepância levantou críticas entre fornecedores e entidades de controle, que apontam possível perda de economia de escala, restrição à competitividade e risco de direcionamento.

Além disso, o modelo escolhido, o Sistema de Registro de Preços (SRP), é considerado inadequado por especialistas. Pois se destina a contratações eventuais, não a serviços contínuos e essenciais como o transporte escolar. Mesmo assim, o Governo planeja firmar contratos de longa duração, com possibilidade de prorrogação por até dez anos.

“Se concretizado nos moldes atuais, o certame poderá consumir mais de meio bilhão de reais em um único ciclo contratual, sem a transparência e o planejamento esperados para um projeto dessa magnitude”, disse a advogada.

Fonte: Da Redação

Rosi Martins

Recent Posts

Chapeiro suspeito de estuprar criança de 11 anos é preso no bairro Raiar do Sol

Vítima e o acusado viviam no mesmo conjunto habitacional, o que teria facilitado a prática…

10 horas ago

Pesquisador investiga causas do desaparecimento de vagalumes

No Brasil, país com a maior diversidade de vagalumes do mundo, muitas espécies permanecem desconhecidas…

12 horas ago

Homem morre após batida entre carro e motocicleta no Equatorial

Equipe do Samu realizou os protocolos de atendimento avançado por 45 minutos, mas vítima não…

12 horas ago

Enchentes afetam cerca de 50 mil pessoas e isolam comunidades indígenas em Roraima

Governo de Roraima ampliou as ações de enfrentamento aos impactos do período chuvoso. Operação mobiliza…

12 horas ago

Feira incentiva protagonismo infantil no empreendedorismo em Boa Vista

Feira do Empreendedorismo reuniu alunos da Escola Municipal Palmira de Castro, no bairro Professora Araceli

13 horas ago

Lei do Superendividamento não perdoa dívidas e Justiça passa a agir com mais rigor

Aumento expressivo no número de ações levou magistrados a reforçarem análise da boa-fé dos devedores…

14 horas ago