Cidades

Vila do Passarão: quedas de energia prejudicam comércio e pequeno produtor

O produtor Ivanir Gomes esperava uma grande venda de Matrinxãs que cria em um tanque no sítio dele, na Vila do Passarão, zona Rural de Boa Vista. Mas um apagão de várias horas no dia 21 de novembro desligou a bomba de oxigênio que mantém os peixes vivos.

O resultado: 170 matrinxãs mortos e um prejuízo de pelo menos R$750, que só não foi maior porque ele conseguiu vender os que já estavam no ponto. Os demais viraram comida para os porcos que ele também cria.

O lucro do mês foi zero. Por outro lado, a conta de luz seguirá na média dos R$200.

“Agora tenho um motor para ter energia. Se não [tiver um] a gente perde. Dos peixes que sobreviveram, nenhum está no ponto de tirar [do tanque]. Hoje joguei a ração e quase nenhum subiu [à superfície] para comer. Não devem ter 50 matrinxãs aí dentro. Não vai ter lucro neste mês”, comentou Ivanir, que também precisa do motor para uma chocadeira.

“Desanima não vender nenhum produto e ainda perder outros”

De nada adianta as prateleiras do mercadinho de Mirlene Pereira estarem abastecidas se cair a energia e, consequentemente, a internet. A máquina de cartão não vai ter sinal e ela não vai poder vender. Em pouco tempo, o sorvete e o picolé guardados no freezer ainda vão derreter. Se o apagão demorar muitos dias, todos os frios irão estragar. O último apagão a deixou o dia inteiro no prejuízo.

“Desanima passar um dia sem vender nenhum produto, perder outros, e não conseguir repor o dinheiro investido neles. Desanima ainda mais porque é algo rotineiro e a conta de luz é cara, mesmo a gente pagando a tarifa rural. Mas não tenho nem como desistir porque essa é a minha única fonte de renda”, desabafou.

Na casa do pastor Enis Lima, foi a geladeira que parou de funcionar. “Quando saí de casa, estava normal. Voltei à noite e somente o congelador estava ligado e o que estava na parte de baixo já estava descongelado”, relatou.

Conforme o pastor, “a gente sai para cidade para resolver alguma coisa, e a luz vai e volta. A gente não pode confiar. É difícil a gente ganhar alguma questão com a companhia de energia. É só gastar tempo e paciência. Por isso, nem procuro mais as autoridades. Mas somos eleitores e queremos labutar na nossa terra”.

Também falta água

Semelhantemente pensa Joaquim da Silva, recém-chegado do município de Caroebe. Agricultor há muitos anos, no Passarão ele só consegue plantar banana, macaxeira e melancia.

Bastante incomodado, ele reclamou que a falta de água é constante para quem não tem dinheiro para cavar poço artesiano.

“Aqui falta muita coisa: o governo promete estrada e não faz, não manda um adubo, não tem ferramenta para furar um poço manualmente, não tem água. O colono não precisa de esmola, mas precisa de ajuda para começar. Como viver num lavrado desses sem condições de furar um poço, de cuidar de uma terra? Vai dar para fazer o quê? Não se produz nada. Quem não tem recurso, que não viva aqui”, desabafou.

Falta no Passarão de energia não é de hoje

A Vila do Passarão faz parte de uma região de mesmo nome, que engloba 27 comunidades, a grande maioria indígena, como TI Serra da Moça e a TI São Marcos.

Além dos problemas já mencionados, a população sofre com ligações clandestinas nos postes de energia (os chamados “gatos”) feitos por vândalos. Elas sobrecarregam e interrompem o abastecimento, provocando a queima de eletrodomésticos.

Sunara de Almeida engrossa o coro de que o sistema está sobrecarregado. Presidente da Associação de Mulheres e Homens Empreendedores Rurais Ungidos do Estado de Roraima (Amherurr), ela explica que há dois anos a Associação protocolou um pedido ao programa federal “Luz Para Todos” para que postes fossem levados ao local, o que aconteceu cinco meses depois.

Na época, havia poucos habitantes. Mas há cinco meses as interrupções no fornecimento aumentaram devido ao crescimento populacional e ao uso de mais eletrodomésticos.

Ao passo que o sinal de telefone é difícil na região, quando falta luz a população não consegue sequer avisar à Roraima Energia. Sunara contou que percebe que um ponto da Vila está sem luz quando as mensagens não chegam a qualquer vizinho.

Recentemente, alguns moradores criaram um grupo no WhatsApp para que ficasse mais fácil perceberem.

É preciso sair do Passarão para que a companhia receba a notificação e faça o reparo. Todo o processo entre alguém avisar que está sem luz até o reparo pode levar dias. “Mas eu tenho meus afazeres, não posso ficar descobrindo falta de luz e indo lá sempre”, lamentou.

“Essa área está precisando de ajuda. Em média 400 famílias que moram no Passarão são afetadas, e somando com as áreas indígenas, que também ficam sem energia, são umas duas mil. Estamos só reivindicando os nossos direitos”, pediu.

Vila do Passarão tem mais problemas de infraestrutura

Os moradores que conversaram com a reportagem falaram também que o Passarão sofre com vicinais e postes que estão dentro de lotes particulares, falta de regularização dos lotes, vicinais de chão batido que alagam no inverno e também são de difícil acesso no verão.

“As estradas são péssimas, cheias de mato e buracos. Há nove vicinais que não estão formalizadas, algumas delas passando por dentro de quintais”, denunciou Sunara.

A violência tem aumentado. “Precisamos de mais policiamento”, emendou a presidente da Associação.

“Estamos a apenas 60km longe de Boa Vista, mas estamos isolados. Queremos que o governo se lembre da gente. Não queremos viver de cesta básica, mas para não precisarmos dela é preciso primeiro que o estado e o município nos apoiem, pois a maioria aqui é carente e vai continuar sendo se não tiver um ponto de partida”, concluiu.

Roraima Energia

Uma equipe da companhia passava pela RR-319 no momento em que a reportagem se dirigia à Vila. Um funcionário disse que eles iam isolar um transformador.

A reportagem entrou em contato com a empresa e aguarda retorno.

Por Nayra Wladimila

Rosi Martins

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