USP seleciona Complexo Barreira, em Roraima, para estudos de separação de terras raras

Equipe está utilizando uma metodologia baseada na extração química das terras raras presentes nas argilas, seguida da separação e quantificação dos elementos para avaliar o potencial da área

USP seleciona Complexo Barreira, em Roraima, para estudos de separação de terras raras
Complexo barreira em Caracaraí, Roraima – Foto: Divulgação

Pesquisas conduzidas por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) em amostras coletadas no Complexo Barreira, localizado em Caracaraí, Sul de Roraima, indicam concentrações de terras raras em argilas superiores à média encontrada nos principais depósitos explorados atualmente no mundo. Os resultados ainda fazem parte da fase de prospecção e mapeamento da área, mas já são considerados promissores pelos pesquisadores.

O professor Henrique Eisi Toma, pesquisador da USP e referência nacional em nanotecnologia e química de materiais, explicou que a equipe está utilizando uma metodologia baseada na extração química das terras raras presentes nas argilas, seguida da separação, assim como na quantificação dos elementos para avaliar o potencial da área.

“O primeiro objetivo é extrair as terras raras utilizando uma solução química de sulfato de amônio. Depois fazemos a precipitação e o isolamento desses elementos na forma de carbonatos, que é o padrão utilizado internacionalmente. Com isso, estamos mapeando a região para identificar quanto existe de terras raras, quais elementos estão presentes e qual é o potencial da área”, explicou o pesquisador.

Conforme Toma, o estudo encontra-se na etapa de prospecção, considerada essencial para definir a viabilidade técnica da ocorrência mineral.

Tecnologia inédita

O professor afirma que a pesquisa não se limita à identificação das terras raras. O grupo da USP trabalha no desenvolvimento de uma nova tecnologia para separar esses elementos utilizando nanotecnologia, área em que o pesquisador atua há décadas.

De acordo com ele, a proposta vai além das técnicas atualmente utilizadas pela indústria mundial.

“Nós estamos desenvolvendo um processo de captura e separação utilizando nanotecnologia. É um projeto bastante ambicioso, porque nem mesmo a China trabalha exatamente dessa forma. Estamos criando novos materiais capazes de capturar seletivamente as terras raras, o que pode representar uma inovação tecnológica para o Brasil”, afirmou.

Caso os estudos avancem, a tecnologia poderá ser aplicada futuramente em outras áreas produtoras do país.

Processo ambientalmente sustentável

Outro diferencial destacado pelo pesquisador é o aspecto ambiental da metodologia.

De acordo com Henrique Toma, a extração das terras raras presentes em argilas utiliza um processo químico considerado de baixo impacto ambiental, sem geração significativa de resíduos.

“A tecnologia que estamos desenvolvendo é totalmente ambientalmente correta. A ideia é não deixar resíduos e não degradar o meio ambiente. Esse é o grande objetivo da pesquisa”, ressaltou.

Concentração supera média global

Os resultados preliminares chamaram a atenção da equipe por apresentarem concentrações superiores às registradas em depósitos de argilas iônicas explorados atualmente na China, país que domina o mercado mundial de terras raras.

Henrique Toma explica que, normalmente, essas argilas apresentam concentrações entre 0,01% e 0,3% de terras raras. Nas amostras analisadas em Roraima, entretanto, os menores resultados já alcançam aproximadamente 0,3%, enquanto algumas áreas chegam a 0,5% ou 0,6%.

“O pior resultado que encontramos em Roraima já é considerado muito bom quando comparado ao que existe na China. Estamos observando concentrações acima da média mundial para esse tipo de depósito, o que torna o estudo bastante animador”, afirmou.

O pesquisador ressalta, porém, que esses números não significam automaticamente a existência de uma jazida economicamente viável. O trabalho agora consiste em ampliar o mapeamento para verificar a extensão da ocorrência mineral.

“Estamos tentando entender até onde essas concentrações aparecem e qual é a dimensão da área. Essa é a fase de pesquisa científica”, explicou.

Mercado estratégico

As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos considerados estratégicos para a economia mundial por serem utilizados na fabricação de veículos elétricos, turbinas eólicas, celulares, computadores, equipamentos médicos, sistemas militares, satélites e diversas tecnologias de ponta.

Atualmente, a China concentra a maior parte da produção mundial desses minerais, enquanto países como Estados Unidos, Japão e União Europeia buscam diversificar seus fornecedores. Nesse cenário, pesquisas que indiquem novos depósitos com potencial econômico despertam interesse crescente da indústria e da comunidade científica.

Fonte: Da Redação

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