Em dado momento de O Agente Secreto (2025), filme brasileiro que venceu dois Globos de Ouro no último domingo, o sogro do personagem principal pergunta ao genro: “E aí, raparigou ou não raparigou?”.
Contextualizando: Marcelo (Wagner Moura, espetacular) perdeu a esposa (Alice Carvalho) há alguns anos. Porem, o sogro quis saber se ele se enrabichou com outra(s) mulher(es) desde então. Ou seja, se ele “raparigou”. Curiosamente, a resposta nunca veio – o que já leva o público a desconfiar e até cravar o que aconteceu.
A cena acabou virando símbolo da obra do pernambucano Kleber Mendonça Filho, que está virando o jogo nessa temporada de prêmios. Tanto que o termo “Raparigou” pegou nas redes sociais para mostrar os feitos históricos de Wagner Moura e do próprio longa em si.

Começou no ano passado com o Festival de Cannes, com os prêmios de Melhor Ator e Melhor Diretor e seguiu com vários prêmios ao redor do mundo. Neste ano, ganhou como Melhor Filme Estrangeiro no Critics Choice e Melhor Filme em Língua Não-Inglesa no Globo de Ouro. Só um apocalipse para impedir o Brasil de aparecer nas indicações ao Oscar, com anúncio programado para o próximo 22 de janeiro. E mais: como favorito a Melhor Filme Internacional. De novo.
Festival de Cannes
Calma que o Oscar não está dado (ainda). Afinal, o filme brasileiro ainda está construindo seu favoritismo, já que, antes dele, outros filmes que despontavam na preferência da crítica. Por incrível que pareça, foi no início da jornada de O Agente Secreto que também surgiram os dois primeiros candidatos a filme internacional favorito: Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi, e Valor Sentimental, de Joaquin Trier. No Festival de Cannes 2025, o representante francês (Acidente) foi o grande vencedor da Palma de Ouro, enquanto o norueguês (Valor) ganhou o Grand Prix.
Enquanto o segundo semestre passava, eu via Valor Sentimental ganhando o amor da crítica como nenhum outro filme dramático – nem mesmo os americanos. E ainda tinha dois motivos bônus: o histórico do diretor, que fez o belíssimo A Pior Pessoa do Mundo (2021), também protagonizado por Renate Reinsve; e a trama, que fala sobre cinema. O risco de uma compensação pelos esnobes do filme de 2021 (que só foi indicado a Melhor Roteiro Original) poderia elevar o filme ainda mais.

Até que chegamos ao final do ano e Foi Apenas um Acidente passou à frente na corrida. Ganhou mais prêmios que o concorrente norueguês, incluindo uma menção honrosa do American Film Institute – que, geralmente, só premia filmes americanos. Alem disso, a crítica voltou os olhos ao drama francoiraniano com ainda mais amor. Cheguei a pensar que nosso possível segundo Oscar já estava perdido, independente do futuro endereço da estatueta.
2026 mudou o cenário.
Perna-cabeluda
O Agente Secreto conquistou o Critics Choice Awards, primeira grande premiação do ano e, na sequência, o Globo de Ouro. Sim, são prêmios da crítica, não de profissionais da área. São membros diferentes e as duas premiações nem podem ser consideradas determinantes para o Oscar.

Porem, o filme de Mendonça Filho está ganhando olhos que, um dia, já foram voltados a Valor Sentimental e Foi Apenas um Acidente antes. E em um momento ainda mais crucial: a semana de votação para os indicados ao Oscar, que se iniciou nesta segunda-feira pós-Globo de Ouro e vai até sexta, dia 16. Pode ter a certeza de que os membros que votam em filmes internacionais estão sedentos para ver que filme de perna-cabeluda é esse.
Só que, ainda que a presença do filme brasileiro em Melhor Filme Internacional fosse considerada certa antes mesmo do Globo de Ouro, não podíamos dizer o mesmo sobre Wagner Moura. Assim como Fernanda Torres no ano passado, com Ainda Estou Aqui, o ator baiano não foi indicado ao Sindicato de Atores e nem ao Bafta, o Oscar europeu. Ele também precisava desse prêmio para ter a visibilidade necessária para uma indicação ao Oscar. Agora que ele venceu, sua atuação ganhará tanta atenção quanto o próprio filme. E, na próxima semana, veremos se os atores da Academia se renderam ao molho do baiano.
Presença tupiniquim
Claro que, apesar da empolgação, precisamos lembrar que ainda estamos em fase de luta por indicação. Nossa torcida fundamental é para que a Academia repita a temporada anterior, dando o equivalente às três indicações do Globo de Ouro: Melhor Ator, Melhor Filme Internacional e Melhor Filme. Só que, desta vez, a caminhada do Brasil está ainda mais fulminante.

Por isso, aposto na possibilidade de vermos O Agente Secreto em outras categorias. Sim, acho que podemos sonhar com Melhor Roteiro Original, Melhor Direção de Elenco e – por que não? – Melhor Direção, para Kleber Mendonça Filho. Eu ficaria ainda mais feliz se Tania Maria aparecesse em Melhor Atriz Coadjuvante.
Falando em outras categorias, talvez o Brasil nem precise de O Agente Secreto para aparecer mais vezes no Oscar 2026. Isso porque o brasileiro Adolpho Veloso fez um trabalho maravilhoso como diretor de fotografia de Sonhos de Trem, tambem ganhando o Critics Choice e aparecendo na pré-lista da Academia. Mesmo rol onde estão o curta-metragem Amarela, de André Hayato Saito; e os documentários Apocalipse nos Trópicos, de Petra Costa, e a coprodução brasileira Yanuni, de Richard Ladkani. Será que teremos a maior presença tupiniquim na história do Oscar?
História e regionalismo
Agora, a grande questão: O Agente Secreto merece mesmo toda essa atenção? Minha resposta é um gigante SIM, desde que fui ao cinema na pré-estreia, em 25 de outubro de 2025. Embora a paulada de Ainda Estou Aqui tenha sido bem maior (olha minha crítica aqui), amei a trama do homem que só quer ter uma vida normal com o filho, mas que é perseguido pelo passado.
O filme puxa o espectador à década de 1970, com uma fotografia e reconstituição de época impecáveis, em um combo que faz parecer que o filme foi feito naquele período, mas só desenterrado no ano passado. Aliás, o clima pesado dos Anos de Chumbo é sentido desde a primeira cena, com morte, descaso, poder, corrupção e, depois, perseguição.

Por outro lado, temos uma resistência apaixonante. Wagner Moura transpira talento e espontaneidade, com a apreensão de quem está sendo caçado, mas com a convicção de que está do lado certo. É o protagonista perfeito para uma trama que exala história e regionalismo, que é uma festa – de frevo – para os sentidos.
No seu círculo, temos a fofa dona Sebastiana, vivida por Tania Maria, em uma atuação tão boa que nem parece uma atuação. Seu senso de acolhimento é tudo o que o mundo precisa hoje, fazendo-nos sorrir em toda cena que ela aparece.
Ainda temos Hermila Guedes e Maria Fernanda Candido do lado dos mocinhos e Roney Villela e Gabriel Leone como vilões. Menções honrosas às participações do alemão Udo Kier (falecido no ano passado) e de Alice Carvalho, que transforma a tela em brasa em pouco tempo de aparição.
Quebra de tom
Só uma coisa me incomoda no filme: a conexão meio torta com as diferentes linhas temporais. Sim, existe uma ótima sacada na montagem, mostrando Marcelo sendo caçado de duas formas diferentes, por dois tempos diferentes, simultaneamente. Porem, a obra tropeça justamente no fim – e nem digo sobre a quebra de tom proposital.

Se por um lado Kleber Mendonça Filho é atrevido ao cortar a linha das convenções no meio da ação, por outro faltou equalizar os elementos do presente em tela. Não darei spoiler, mas tem uma cena com duas pessoas conversando na mesa onde a diferença de atuações é gritante. É como se a direção se mantivesse consistente no passado e afrouxado no presente.
Entretanto, é uma falha tão pequena que, por si só, não atrapalha a experiência. O final merece debate e, certamente, deve ter frustrado quem esperava ver mais daquela história cheia de adrenalina (eu mesmo saí do cinema falando “poxa”). Olhando mais profundamente, no entanto, percebemos que O Agente Secreto nunca foi sobre perseguição e caçada mortal, mas um relato sobre a importância da memória. Não é somente sobre Recife, mas sobre o Brasil. E não é só cinema, mas um filme SOBRE cinema – tem uma pequena-grande homenagem a Tubarão (1975), de Steven Spielberg, ali no meio.
Linha de chegada
É o seguinte: O Agente Secreto está pronto para enfrentar a concorrência. Já passou por Cannes, várias premiações regionais e as televisionadas. Estamos em uma semana importante para o prosseguimento da temporada. Vamos ver se Academia escreverá o nome do Brasil novamente na estatueta mais cobiçada do cinema.
Ainda é cedo para dizer se Pernambuco trará esse ouro no dia 15 de março, já que a concorrência continua forte e presente. Mesmo assim, analisando a temporada, vemos que filmes como o sul-coreano A Única Saída e o espanhol Sirat podem até ser indicados, mas sequer aparecerão nas apostas de vitória. Ou seja, a linha de chegada será disputada por Noruega, França e Brasil.

Contudo, também percebi que a bolsa de valores de Valor Sentimental desceu um pouco, a de Foi Apenas um Acidente se manteve reta e a de Agente subiu. Ainda mais agora com essa vitrine do Globo de Ouro, também para Wagner Moura. Visto ele já está sendo. Agora, esperamos que seja lembrado pela Academia. De toda forma, o mundo está reconhecendo o grande ator que ele é. Ou seja, o baiano já é um vencedor.
E aí: raparigou ou não raparigou?
Júnior Guimarães é jornalista e escreve a coluna Cinema em Tempo. Toda semana aqui no Roraima em Tempo temos uma análise sobre o mundo cinematográfico. No Youtube, Júnior tem um canal onde faz críticas e avaliações sobre cinema.


