Manter a saúde financeira de um pequeno negócio ainda é um dos maiores desafios enfrentados por empreendedores em Roraima. Levantamento com base no atendimento técnico do Sebrae Roraima aponta que erros como falta de controle, ausência de planejamento e decisões tomadas sem base em dados comprometem não apenas o crescimento, mas a sobrevivência das empresas.
Na prática, muitos empreendedores enfrentam dificuldades por não adotarem rotinas básicas de organização financeira, o que impede uma visão clara sobre o desempenho do negócio. Sem esse controle, decisões importantes acabam sendo tomadas no escuro, aumentando os riscos de prejuízos.
De acordo com a gerente da Unidade de Gestão Financeira (UGF), Giselly Cardoso, problemas recorrentes são identificados com frequência durante os atendimentos realizados pela instituição.
“É comum não dispor de um controle do fluxo de caixa, a “mistura” das finanças pessoais com as da empresa e a ausência de planejamento financeiro. Outro fato importante é que muitos empreendedores não registram todas as entradas e saídas, o que dificulta entender se o negócio realmente está sendo lucrativo”, destacou.
Mistura de contas e falta de controle comprometem a gestão
Um dos principais erros observados é a ausência de separação entre as finanças pessoais e empresariais. Embora seja uma prática comum, especialmente em pequenos negócios, ela pode gerar impactos diretos na organização financeira.
Sem essa divisão, o empreendedor perde a capacidade de identificar quanto a empresa realmente fatura, quais são seus custos e se há lucro ao final do mês. Isso dificulta o planejamento e compromete a tomada de decisões.
“Misturar contas é um dos maiores riscos para a saúde financeira do negócio. Isso impede o empreendedor de saber quanto a empresa realmente fatura e seus gastos, além de dificultar o controle e a tomada de decisões. Na prática, ele pode achar que está tendo lucro, quando na verdade está apenas usando dinheiro da empresa para cobrir despesas pessoais”, explicou Giselly.
Outro fator crítico é a falta de registro das movimentações financeiras, o que impede qualquer análise mais precisa sobre o desempenho da empresa.
Organização financeira começa com medidas simples
Apesar dos desafios, a organização financeira pode começar de forma acessível. A adoção de hábitos simples já é suficiente para trazer mais clareza sobre a realidade do negócio.
“O primeiro passo é separar as finanças pessoais das empresariais. Em seguida, é fundamental começar a registrar todas as movimentações financeiras, por mais simples que sejam. Esse controle já traz mais clareza sobre a realidade do negócio”, afirmou.
Ferramentas simples, como planilhas ou até mesmo anotações manuais, já podem ser utilizadas nesse processo, desde que haja disciplina no acompanhamento das informações.
“Uma planilha simples pode ser suficiente para começar, ou até mesmo um caderno, desde que haja disciplina no registro diário das informações. Não só ter uma ferramenta é o mais importante, mas também ter o hábito de anotar e acompanhar os números com frequência”, orientou.
Planejamento evita prejuízos e garante estabilidade
A falta de planejamento financeiro é outro problema que impacta diretamente os pequenos negócios. Sem organização, decisões acabam sendo tomadas de forma impulsiva, sem análise da real capacidade financeira da empresa.
“A ausência de planejamento, leva o empreendedor a tomar decisões no impulso, como comprar mercadorias sem saber se terá dinheiro para pagar ou investir sem avaliar o retorno. Ações como estas podem acarretar o desequilíbrio financeiro e/ou até endividamento desnecessário”, explicou Giselly.
O controle do fluxo de caixa também é essencial nesse processo, pois permite acompanhar a movimentação financeira e evitar problemas no pagamento de despesas.
“O fluxo de caixa é o que demonstra a movimentação financeira, ou seja, tudo que entra e sai do negócio. Sem esse controle, o empreendedor pode ter vendas, mas não ter dinheiro em caixa para pagar contas. Um controle eficiente ajuda a evitar atrasos, planejar pagamentos e garantir o pleno funcionamento da empresa”, destacou.
Além disso, existem sinais que indicam que a empresa pode estar enfrentando dificuldades, mesmo quando isso ainda não está evidente para o empreendedor.
“Alguns sinais são: pagamento das obrigações (contas a pagar) contas em dia, uso frequente de crédito ou empréstimos, falta de dinheiro mesmo com boas vendas e ausência de controle financeiro. Outro indicativo é quando o empreendedor não consegue dizer com clareza se teve lucro no mês”, ressaltou.
Para evitar o endividamento, o planejamento deve ser uma prática constante.
“A principal orientação é planejar antes de assumir qualquer compromisso financeiro. É importante conhecer a real capacidade de pagamento da empresa e evitar assumir dívidas sem ter previsibilidade de receita. Organização e controle são a base para evitar o endividamento”, afirmou.
Precificação e gestão definem o futuro do negócio
Na avaliação do gerente da Unidade de Administração e Suprimentos (UAS), Jefferson Silva, os problemas financeiros que mais levam pequenos negócios ao fechamento estão diretamente ligados à falta de controle e à ausência de práticas básicas de gestão.
Segundo ele, muitos empreendedores ainda enfrentam dificuldades em acompanhar receitas, despesas e até o giro de estoque, o que compromete a saúde financeira da empresa e dificulta a tomada de decisões.
“Falta controle das receitas e, principalmente, das despesas, além do acompanhamento do giro de estoque. Também é comum misturar contas pessoais com as da empresa e não saber precificar corretamente, o que acaba comprometendo a organização financeira do negócio”, pontuou.
Esse cenário mostra que não se trata apenas de vender mais, mas de entender como o dinheiro circula dentro da empresa. Para Jefferson, faturamento e gestão precisam caminhar juntos para garantir resultados consistentes.
“Os dois pesam, porque um complementa o outro. Não adianta ter faturamento sem controle, assim como não adianta organizar a gestão sem gerar receita”, destacou.
Rotina e controle dos negócios
Uma das formas mais eficientes de compreender a realidade financeira é acompanhar de perto todas as movimentações do caixa, criando uma rotina de controle no dia a dia do negócio.
“Anotar todas as saídas de recursos do caixa é fundamental para entender para onde o dinheiro está indo e conseguir ter mais controle financeiro do negócio”, orientou.
Na prática, esse acompanhamento permite identificar excessos, corrigir falhas e tomar decisões com mais segurança.
Quando o negócio já apresenta sinais de desorganização financeira, buscar apoio técnico pode ser decisivo para reverter o cenário e reorganizar a empresa.
“O ideal é buscar um profissional ou uma instituição que possa oferecer capacitação ou consultoria, ajudando o empreendedor a organizar melhor as finanças e estruturar o negócio”, afirmou.
Planejamento e segurança
O planejamento financeiro também é apontado como essencial para garantir crescimento com mais segurança e menos riscos.
“Planejar permite que o empreendedor organize o crescimento do negócio de forma sustentável e segura, evitando decisões impulsivas e problemas no futuro”, explicou.
Outro ponto crítico destacado por ele é a precificação, ainda um desafio para muitos pequenos negócios e que impacta diretamente o caixa das empresas.
“A grande maioria dos empreendimentos não sabe precificar corretamente e, aliado à falta de controle, isso acaba gerando falta de recursos no caixa e dificuldades para manter o negócio funcionando”, destacou.
Além disso, compreender a diferença entre custos, despesas e lucro é fundamental para uma gestão mais eficiente e estratégica.
“Isso permite mais segurança, planejamento e uma execução mais confiante, porque o empreendedor passa a entender melhor os números do seu negócio”, afirmou.
Por fim, Jefferson reforça que mudanças simples no dia a dia já podem trazer resultados significativos para a saúde financeira da empresa.
“Anotar é o caminho. Entender o giro de estoque e acompanhar o ciclo do caixa permite que o empresário tenha mais segurança para tomar decisões e até expandir o negócio”, concluiu.


