Em áudio, empresário que ganhou licença do governo chama ribeirinhos de ‘vagabundos’

Victor Vilanova ganhou autorização para explorar pesca esportiva na região por 10 anos

Em áudio, empresário que ganhou licença do governo chama ribeirinhos de ‘vagabundos’
Denarium anunciou liberação de licença no dia 6 de setembro – Foto: Reprodução/Facebook/Antonio Denarium

O empresário Victor Vilanova chamou ribeirinhos do Baixo Rio Branco de “vagabundos” por protestarem contra a licença cedida pelo Governo de Roraima para que ele explore a pesca esportiva na região.

O Estado anunciou a licença na semana passada, com duração de 10 anos. A empresa contemplada é a Vilanova Amazon Agência De Viagens LTDA, do Paraná.

“Não adianta meia dúzia de vagabundos ficar pegando dinheiro da liga das Eco-Pousadas para querer me denunciar”, declarou Victor, por telefone, ao ser procurado pelo Roraima em Tempo.

Ouça áudio

A declaração de Victor veio após o jornal procurá-lo para comentar a insatisfação dos ribeirinhos. De acordo com eles, o Estado indicou e liberou a licença para o empresário.

O Roraima em Tempo tentou encontrar a publicação do documento, mas não a encontrou no Diário Oficial do Estado (DOE), nem no site da Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Femarh).

Todavia, nas redes sociais, o governador Antonio Denarium (sem partido) divulgou a licença, e defendeu a medida para atrair turistas.

O jornal procurou o governo, entretanto, ainda não recebeu resposta.

‘Desrespeito’

Conforme o presidente da Associação de Moradores de Canauini, Valdenir dos Santos, os ribeirinhos classificam a medida como “desrespeito”.

“Estamos muito insatisfeitos com esse atual governo. Ele [Denarium] vem querer mandar uma empresa que nem conhecemos para trabalhar no nosso rio. A Femarh também não consultou as comunidades sobre essa situação”, critica.

De acordo com Valdenir, os moradores já trabalham com a pesca esportiva há 16 anos, em Caracaraí, junto à empresa Liga de Eco-Pousadas da Amazonia LTDA.

O jornal procurou a empresa, mas o gerente não estava disponível para conversar.

Valdenir disse ainda que a Liga trabalha na preservação do rio, e paga compensação financeira para reduzir o impacto no meio ambiente. Dessa forma, o benefício é gasto nas comunidades.

“Hoje temos 100% de água limpa por conta de poços artesianos que foram feitos nas três comunidades. Além disso, há motores de popa para fazer remoção quando tem pessoas doentes entre outros auxílios”, fala.

Licença

Região fica no Baixo Rio Branco – Foto: Arquivo pessoal

A Liga de Eco-Pousadas possui uma licença expedida pela Prefeitura de Caracaraí. Por isso, os moradores pedem que a Femarh mantenha a concessão.

“O governo quer anular a licença do município e ficar somente com a da Femarh. Ou seja, eles dizem que não temos o poder de escolha. Entretanto, queremos que o Executivo venha nos consultar. Eles querem favorecer a Vilanova, mas nós queremos continuar como estamos”.

Na mesma linha de entendimento, o presidente da Comunidade Lago Grande, Arailton Silva, diz que a decisão de retirar a Vilanova do Baixo Rio Branco é unânime.

“Nós não queremos que esse Vilanova trabalhe no nosso rio. O governador e a Femarh estão tentando nos obrigar a aceitar isso, e não queremos. Somos maioria!”, declara.

Denúncias contra empresário

O Ministério Público do Amazonas (MPAM) investiga Victor Vilanova por crime ambiental. Em maio deste ano, o órgão abriu um inquérito para apurar o caso.

Conforme a denúncia, Victor causou desmatamento na Região do Rio Jufaris, nas comunidades Caburis e Caju, localizadas entre Barcelos, no Amazonas, e Caracaraí, em Roraima.

Além disso, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipam) disse ao Ministério Público que Vilanova não tinha licenças ambientais para atuar na região.

“É inaceitável a presença desse empresário que já vem fazendo confusão há mais de dois anos no nosso rio vizinho, na Vila de Caicubí. Ele faz desmatamento ilegal, não o queremos como parceiro”, critica Valdenir.

‘Vagabundos’, diz empresário

Contudo, procurado pela reportagem, o empresário Victor Vilanova rebateu as críticas, chamou os ribeirinhos de “vagabundos”, e acusou os moradores de pagarem para a imprensa publicar matérias.

“Denuncia, apresenta um documento que eu não tenho, aí eu posso questionar a denúncia. Agora, só ficar fazendo bagunça, barulho, pagando jornal para falar mal de mim, é a cara deles. Eu tenho como me defender juridicamente, tenho tudo documentado, e quem não gostar chora”, diz.

Por outro lado, Victor falou que a licença liberada pelo governo é baseada em um contrato que ele fez com as Vilas Terra Preta e Lago Grande.

“Tenho um vídeo que mostra a comunidade da Terra Preta e Lago Grande assinando contrato de 10 anos comigo. Então, o que acontece, esse é o choro de desespero da outra empresa que não tem licenciamento legal. É uma briga de interesses”, afirmou.

Vilanova disse que gastou ainda R$ 96 mil com o licenciamento e atuar na região. “Paguei avião, fazendo ação social na Terra Petra. Eu levei do meu bolso cinco médicos. Todo acordo que foi combinado com a Vila”.

Questionado sobre o inquérito, o empresário voltou a dizer que foi denunciado por “adversários”.

“Eu paguei R$ 60 mil para fazer uma propriedade privada e a família que me cedeu o terreno pegou a obra para fazer. Pedi na secretaria da cidade uma autorização de corte e liberação para obra. O rapaz cortou uma castanheira e colocaram na minha conta, e abriram processo contra mim. Isso é outro choro de perdedor que não tem documento. Eles só têm propina para as vilas. Eu não sou bandido”, finaliza.

Citada

A Femarh disse que emitiu a licença dentro da legalidade, de acordo com a legislação, e que os empresários interessados na pesca esportiva podem regulamentar a atividade.

“Esclarece que no processo de licenciamento está inserido um abaixo assinado da comunidade apoiando a instalação da empresa”, diz.

Segundo a Femarh, os técnicos ambientais foram ao Baixo Rio Branco e conversaram com a comunidade que apoiou a empresa.

O governo disse ainda que não existe restrição de outras empresas atuarem, mas que precisam estar regularizadas “para gerar emprego e renda com responsabilidade ambiental”.

Por Redação

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