Investigação da PF revela governador de RR e Disney Mesquita como líderes de organização criminosa suspeita de fraude e desvio de verbas de obras na Seinf

Conteúdo de celular apreendido com dono de empresa de obras mostra intensa movimentação financeira e interferência de Damião e Mesquita em licitações

Investigação da PF revela governador de RR e Disney Mesquita como líderes de organização criminosa suspeita de fraude e desvio de verbas de obras na Seinf
Disney Mesquita e Edilson Damião – Foto: Reprodução

A apreensão de R$ 150 mil realizada pela Polícia Federal (PF) em janeiro deste ano já rendeu novas revelações. A partir de conversas extraídas no WhatsApp do empresário Clóvis Pedra, dono da CB Pedra Serviços e Construções Ltda, a instituição identificou um possível esquema de desvio e lavagem de dinheiro na Secretaria de Infraestrutura do Estado (Seinf).

Conforme organograma montado pela PF, o governador Edilson Damião (União) é apontado como o chefe operacional e principal articulador do suposto esquema criminoso. Já Disney Mesquita seria o chefe financeiro e principal beneficiário do esquema.

Conforme documento obtido pela reportagem, a análise preliminar dos celulares apreendidos durante a prisão de Clóvis e do policial militar Marcos Holanda, revelou forte envolvimento de Disney Mesquita e de sua secretária nas transações financeiras da Seinf. E, do mesmo modo, a utilização de empresas para dar aparência legal a movimentações financeiras com recursos públicos desviados.

Direcionamento de emendas

De acordo com as conversas extraídas do celular de Clóvis, ele tratava pessoalmente com uma secretária executiva do Palácio do Governo sobre as emendas parlamentares que seriam destinadas para obras na Secretaria de Infraestrutura, comanda ainda por Edilson Damião. A secretária atua na Casa Civil desde que Disney assumiu o cargo de secretário da Pasta.

Os policiais federais encontraram um print com o contato dela no celular do policial militar preso ao fazer a segurança do empresário Clóvis Pedra no transporte dos R$ 150 mil. No espaço para o sobrenome da secretária, estava escrito o nome “Disney”.

Planilhas

Além disso, a PF constatou que Damião tratava dos processos licitatórios diretamente com Clóvis Pedra. O então secretário enviava planilhas com os dados e fazia ligações pelo WhatsApp, e as apagava em seguida. A licitação, no caso, só seria lançada posteriormente. O que pode qualificar um direcionamento do processo.

“Dito de outro modo, Edilson Damião aparentava estar, naquela data, combinando com Clóvis os detalhes de uma Licitação que só seria publicada dali a cerca de 4 meses”, questiona a PF.

Outro ponto destacado no documento ao qual o Roraima em Tempo teve acesso, é que Clóvis tratava de assuntos relaciinados a outras empresas. Como por exemplo, a que está em nome do irmão de uma deputada. Em uma das conversas extraídas do celular do empresário, a secretária dele explica que ainda falta um boletim para enviar uma medição da empresa do irmão da deputada para a Seinf. Medição é um procedimento que mede o avanço de uma obra para pedir pagamento percentual. A PF questiona o motivo pelo qual Clóvis executa trabalhos administrativos de um empresa que não está em seu nome e que ganha licitações no Governo.

“Ora, por qual motivo Clóvis, sócio proprietário da C B Pedra, pergunta a Damião sobre processo licitatório de empresa diversa? E por que Damião lhe responde normalmente, sem estranhar?”.

Proximidade ‘estranha’

As conversas no celular também revelaram que Damião convidava Clóvis à sua casa para tratar de assuntos relacionados às licitações. O que, de acordo com a PF, causa estranheza.

“Estamos falando de um empresário que recebeu mais de R$ 160 milhões em contratos firmados com a Secretaria da Infraestrutura, todos durante o tempo em que Damião era o Secretário daquela Pasta. Causa estranheza que assuntos de trabalho sejam discutidos na casa do Secretário”, diz trecho do inquérito.

Empenho

No dia 19 de fevereiro de 2025, Clóvis enviou um áudio para Edilson Damião pedindo informações sobre pagamento. Ele explica que Disney o teria informado que a Seinf emitiria nota de emprenho.

“Oi Edilson, boa tarde, tudo bem? Edilson, me dê uma informação: vai ter empenho para a nossa empresa C B Pedra? O Sr. Disney falou comigo e disse que ia sair empenho hoje, ele acabou de me ligar, só que o senhor não passou nenhuma instrução ainda para seus subordinados. Vai ter mesmo? O senhor sabe me informar?”

Damião então respondeu o seguinte: “Boa tarde, amigo”. “Amanhã eu vejo”.  Logo depois, o empresário afirma que “ele liga o dia todo rsrsrs”, se referindo a Disney.

Propina

Comprovantes contidos em conversas de Clóvis Pedra com servidores da Seinf, supõem possíveis pagamentos de propina. Como por exemplo, para o atual secretário titular da Seinf, Emerson de Paula. Clóvis enviou para ele um comprovante de PIX enviado para esposa de Emerson no valor de R$ 7.188,00.

Há ainda um outro servidor que recebeu, em nome de sua microempresa, o valor de R$ 19.500,00.

A mãe deste mesmo servidor, uma senhora de 76 anos, recebeu também da empresa de Clóvis, um PIX de R$ 40.000,00. Os comprovantes também estão no inquérito.

Em nota, a Seinf disse que todos os processos conduzidos ao longo dos anos foram realizados dentro das normas legais, com observância rigorosa à legislação vigente e aos princípios da administração pública. E que as informações divulgadas na reportagem referem-se a suposições e supostos indícios, ainda sem comprovação legal.

Disse ainda que desde 2023, com a criação da Secretaria de Licitação e Contratação (Selc), os processos licitatórios do Poder Executivo estão centralizados neste novo órgão, não sendo mais de responsabilidade direta da Secretaria de Infraestrutura.

A Secretaria ainda criticou a imprensa pela divulgação de informações dessa natureza e então concluiu ao dizer que “reafirma o compromisso com a legalidade, a transparência e a correta aplicação dos recursos públicos, e confia no trabalho das instituições para o pleno esclarecimento dos fatos”.

Dinheiro para Disney

O inquérito também tem fotos de anotações que mostram cálculos de pagamentos a serem feitos para Disney ou pessoas e empresas ligadas ou em nome dele.

A PF trabalha com  hipótese de que os R$ 150 mil apreendidos com Pedra e o policial militar seria destinados a ele.

No celular de Clóvis consta, inclusive, foto de comprovante bancário através do qual se transferiu R$ 300 mil àquela empresa: Açai Autoposto LTDA em 17/12/2025

Dois minutos depois Clovis enviou R$ 400.000,00 a DEC Construções, também em nome de Disney.

O empresário Disney afirmou ao Roraima em Tempo que ocupou o cargo de chefe da Casa Civil até maio de 2020, ou seja, ainda no primeiro governo do Antônio Denarium. Ele destacou que é pecuarista, agricultor e que tem empresa e trabalha no ramo de construção há mais de 30 anos.

Mesquita disse que não mantém e nunca manteve contrato algum com o Governo do Estado durante o governo Derarium, e que a relação com a empresa CB Pedra é formal, através de contrato de aluguel de máquinas e com emissão de notas ficais de todos os equipamentos locados e de todo o volume de combustível vendido.

A reportagem também procurou a empresa CB Pedra, mas até a publicação desta matéria, não houve manifestação.

Fonte: Da Redação

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